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Você já viu alguém dizer que um terço dos jovens acredita que a Terra é plana? Essa frase circula muito, e ela é falsa. Vale saber por quê, porque o erro está em como a pergunta foi lida.
Existem pesquisas sérias sobre o assunto, feitas por institutos conhecidos, e os números que elas trazem são bem menores do que a conversa na internet sugere.
Este texto reúne o que essas pesquisas mostram, com a fonte de cada dado, e termina com duas ferramentas gratuitas que qualquer pessoa pode usar para conferir as coisas por conta própria.
Leitura de 6 minutos
📋 O que você vai encontrar aqui
- A manchete que quase todo mundo repetiu errado
- Os números por país
- Crer e duvidar são coisas diferentes
- O preditor que surpreende
- Por que o tema parece maior do que é
- O que não funciona
Principais Conclusões
- O grupo que afirma o modelo plano é pequeno em todo país onde houve medição
- O Brasil tem o maior percentual publicado: 7%, segundo o Datafolha
- O melhor preditor não é idade nem escolaridade, e sim religiosidade declarada
- A manchete do ‘um terço dos millennials’ é leitura errada da pesquisa original
- O grupo grande não é o dos crentes, é o dos curiosos — e quase não foi estudado
A manchete que quase todo mundo repetiu errado
A pesquisa que deu origem à frase perguntava se a pessoa sempre acreditou que a Terra é redonda. Entre os jovens americanos de 18 a 24 anos, 66% responderam que sim, sempre.
Os 34% restantes foram tratados por muita gente como terraplanistas. Só que esse grupo incluía quem tinha dúvida, quem não sabia, quem já teve dúvida e passou, e uma fatia pequena que de fato afirmava o modelo plano.
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A afirmação convicta nessa faixa etária ficou em 4%. Transformar ‘não respondi sempre’ em ‘acredito que é plana’ é um salto que a pesquisa não autoriza.

Os números por país
O Brasil tem o maior percentual entre os países com pesquisa publicada. O Datafolha encontrou 7% de brasileiros que discordam da afirmação de que a Terra é redonda — em população, cerca de 11 milhões de pessoas.
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Nos Estados Unidos, o YouGov encontrou 2% que afirmam com convicção, e 84% que dizem que é redonda. No Reino Unido, uma pesquisa do mesmo instituto ficou perto de 3%.
São números pequenos, e a distância entre eles é interessante por si só.
| País | Percentual | Instituto |
|---|---|---|
| Brasil | 7% | Datafolha |
| Reino Unido | cerca de 3% | YouGov |
| Estados Unidos | 2% a 4% | YouGov |
Crer e duvidar são coisas diferentes
Essa é a distinção que organiza o assunto inteiro. O grupo que afirma o modelo plano é pequeno em todo lugar onde se mediu. O grupo que tem alguma dúvida, ou que simplesmente nunca parou para pensar, é muito maior.
E faz sentido que seja. Quase ninguém verificou pessoalmente a forma do planeta. A maioria acredita na esfera porque foi o que aprendeu, não porque mediu.
Reconhecer isso não enfraquece nada. Só descreve com honestidade como o conhecimento chega até quase todos nós.
O preditor que surpreende
O achado mais interessante das pesquisas não é quantos são, e sim o que os separa do resto da população. Não é idade, não é renda, não é escolaridade.
É religiosidade declarada. Segundo o levantamento do YouGov, 52% de quem diz que a Terra é plana se descreve como muito religioso, contra 20% da população em geral.
É correlação, não causa, e não diz respeito a nenhuma religião específica. Aponta apenas para uma certa relação com autoridade e com texto, que caminha junto com a disposição de aceitar uma explicação fora do consenso.
Por que o tema parece maior do que é
Boa parte do fenômeno é de mídia, não de crença. Conteúdo sobre o assunto tem três características que plataformas de vídeo recompensam: promete revelação, contraria o senso comum e gera comentário aceso.
Isso faz o tema circular muito além do grupo que acredita nele. A maioria de quem assiste está ali pela curiosidade ou pelo espanto, não pela convicção.
É por isso que a presença do assunto na internet parece dez vezes maior do que os números das pesquisas indicam.
O que não funciona
Deboche não funciona. Pesquisas sobre correção de informação são consistentes: humilhar reforça a posição da pessoa em vez de mudá-la.
Apelo à autoridade também rende pouco com quem já desconfia da autoridade. Dizer que uma agência espacial afirma algo é exatamente o argumento que não alcança esse público.
O que costuma funcionar é o contrário: oferecer uma verificação que a própria pessoa possa fazer, sem depender de ninguém.
Primeira ferramenta: o céu
Um app de carta celeste mostra o céu de qualquer ponto do planeta e de qualquer data, e não pede que você acredite em nada.
Compare o céu de Sydney, de Santiago e da Cidade do Cabo. Depois compare com o de uma cidade do hemisfério norte. As constelações do sul giram em torno de um mesmo ponto central, e isso é reprodutível por qualquer pessoa.
O Stellarium Mobile faz isso na versão gratuita, e é a maneira mais rápida de trocar uma discussão por uma observação.
Segunda ferramenta: os voos
A outra verificação aberta a todos é a aviação. Existem voos comerciais diretos entre a América do Sul e a Oceania, com horário publicado e duração conhecida.
Um rastreador mostra esses aviões no ar agora, com a rota desenhada sobre o mapa, e dá para acompanhar do começo ao fim.
O Flightradar24 faz isso na versão gratuita. É dado aberto, atualizado a cada minuto, e não depende de confiar em nenhuma instituição.
Os limites destes números
Vale ser transparente. As pesquisas citadas aqui são de 2018 e 2019, e não há levantamento recente com a mesma qualidade metodológica.
A proporção entre os países provavelmente continua válida, mas os valores absolutos podem ter mudado nos anos seguintes.
E há um buraco maior: não existe boa medição do grupo dos curiosos, que é o maior de todos e o menos estudado.
Uma conclusão sem lição de moral
O retrato que os dados desenham é bem menos dramático do que a conversa pública sugere. O grupo convicto é pequeno, e a maior parte da atenção ao tema vem de gente que acha o assunto interessante e nada mais.
Para quem está nesse segundo grupo — que é quase todo mundo —, a parte que rende não é escolher um lado. É aprender a conferir: como funciona uma projeção cartográfica, por que uma rota parece torta no mapa, o que se vê no céu do outro hemisfério.
Quem sai dessa curiosidade sabendo fazer essas verificações levou algo que serve para muito mais coisa do que este assunto.
Tudo o que este texto diz sobre os aplicativos vem da descrição publicada nas lojas, que os desenvolvedores podem alterar quando quiserem, junto com os recursos, os idiomas e as compras oferecidas. Abra a ficha e confira as condições atuais antes de instalar. Não nos responsabilizamos por mudanças nos aplicativos, pelo conteúdo de terceiros nem pela sua experiência de uso.
FAQ
É verdade que um terço dos jovens acredita que a Terra é plana?
Não. A pesquisa perguntava se a pessoa sempre acreditou que a Terra é redonda, e 66% dos jovens de 18 a 24 anos responderam que sim. Os demais incluíam dúvida e desconhecimento; a afirmação convicta ficou em 4%.
Quantos brasileiros acreditam nisso?
O Datafolha encontrou 7% que discordam da afirmação de que a Terra é redonda, cerca de 11 milhões de pessoas. É o maior percentual entre os países com pesquisa publicada.
E nos Estados Unidos e no Reino Unido?
O YouGov encontrou 2% de americanos que afirmam com convicção, e 84% que dizem que é redonda. No Reino Unido, uma pesquisa do mesmo instituto ficou perto de 3%.
Qual característica melhor prevê essa crença?
O grau de religiosidade declarada: 52% de quem diz que a Terra é plana se descreve como muito religioso, contra 20% da população em geral. É correlação, não causa, e não se refere a nenhuma religião específica.
Por que o assunto parece tão grande na internet?
Porque conteúdo sobre o tema promete revelação, contraria o senso comum e gera comentário aceso — três características que plataformas de vídeo recompensam. Ele circula muito além do grupo que acredita nele.
Adianta discutir com quem acredita?
Pesquisas sobre correção de informação indicam que deboche reforça a posição, e que apelo à autoridade convence pouco quem já desconfia de instituições. Oferecer uma verificação que a pessoa possa fazer sozinha costuma render mais.
